

Ali logo na esquina a casa do Ti
Pinheiro. Soto de secos e molhados, botequim das tertúlias e posto
do Correio.
- Oh senhor José Maria a minha mãe
mandou-me perguntar se temos correio?
Por lá aparecem ao fim da tarde o ti
Alfredo Neto, o Senhor João Lagoa, e até o Padre Zé. Por aqui
cavaqueiam o ti Calçada, o ti Deldino, o ti Ché, o ti Francisco
Carvalho, o ti Manuel Caseiro, o ti Zé Manuel Chantre, e aparece de
quando em vez o Ti José Manuel Azevedo a contar uma conta – Sabes!
Numa ocasião...!
De fronte, imponente a casada Senhora
D. Adelaide. Obra dos Moredos com cantaria de Vila d’Ala. Depois é
aqui que começa a rua da Malhada. Vê-se lá em baixo a Capela da
Senhora das Dores e avista-se ainda a casa do Senhor Manuel Vitorino
na rua que dá para as Eiras de Baixo.
Aqui, debaixo da varanda do Ti Heleno,
à abrigada, nas tardes de domingo, depois do jantar da matança,
exibem-se os queixos rosados, arrota-se ao guisado da barbada e
dizem-se enormidades quanto ao peso do unto.
O Balcão é rua e é praça. É rua de
poucas casas e praça de uma bica só. E ao lado da bica a casa do
Senhor Antoninho. Mas é ao Balcão que vão as moças à fonte. E muitas
vezes não é pela água. Ou então porque será o olhar maroto e o
sorriso daqueles rapazolas quando passou a Maria e a Joana com os
cantaros de barro ao quadril?! E o requebro de anca das moçoilas
será assim tão inocente?!
Sendo praça, o Balcão é maior que a
praça Trindade Coelho, muito maior que o Rossio, que S. Marcos, ou
mesmo a Plaza Mayor. É um rossio sim, mas que não cabe em qualquer
betesga.
É ao Balcão que chegam os rapazes
quando tiram as sortes e é pelo Balcão que se regressa da guerra do
Ultramar.
É pelo Balcão que entram os
peliqueiros com as mulas carregadas de peles, cornichoulos e moscas.
E entra o vento do Prado.
O Balcão é um tempo. Onde o
Guilhermino montou açougue. Há-de mais tarde ter taberna. Do ti
Martinho França. E café da Tia Marquinhas.
É daqui que se abala para o Brasil e
para África.
E é um templo. Ao ócio, ao passado, à
partida e ao regresso. À ruralidade e ao progresso.
Ajusta-se o preço do quintal da
cortiça, pergunta-se a como corre a arroba da amêndoa, ou a como
pagam o azeite.
Contrata-se a jeira e combina-se a
torna-jeira. E chegado o tempo de regar, marcam os consortes a
limpeza das poças e dividem a água.
Celebram-se os afilhós das colheitas,
bate-se o saricoté e baila de mão em mão a remeia de vinho.
É no Balcão que o ti Meão ensaia a morte do Entrudo, carregando o
rei mono em carro puxado por meia dúzia de juntas de burras.
O Balcão é um modo.
De ser emancipado - já vai para o
Balcão, o merdas! Vejam lá!
De ser marialva. De homens e rapazio,
onde a mulher se não demora. Passa sem se deter, enche o cantaro e
volta com o pudico olhar na calçada.
De estar aos domingos de barba feita e
camisa lavada. É um modo de ficar e de partir.
E é daqui que ainda hoje seguem os
postais. |