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Estourotes (Digitalis purpurea)

Pastor na Serra

Buxo (Buxus sempervirens)

Gladíolo selvagem (Gladiolus
illyricus)

Canelo

Pinpilrro

Madressilva (Lonicera implexa)
Texto e
Fotografias: Xo_oX
30 de Maio de 2007
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Do alto da Serra ao alto do Poio

Com Maio quase a terminar, abalei até
Brunhoso, a descobrir o que de novo se passava por lá. À certa a serra
estava florida, seria advertido dar a volta à folha! Quem sabe não
encontrava o tal Buxus sempervirens!
O desafio começou na serra, em Cinzas, a
756 metros de altitude. O carro de apoio largou-me junto ao cruzeiro.
Caminhei entre alamedas de escovas amarelas, douradas, tão
brilhantes que feriam o olhar de cada vez que o sol conseguia furar
a manta de nebuinha que se estendia pelos frescos campos até
Mogadouro.
De repente, saíram-me ao caminho uma
dúzia de enormes cachorros. - Bá! Queres ver que já me estragam o
passeio?! O Abilho Zé estava perto. Gritou aos animais que, pouco a
pouco, amaciaram (tal como todos os pelos do meu corpo).
Subi ao marco geodésico. Passei os olhos
pelas arçanhas e escovas decoradas com estourotes, pimpilros e mais
uma infinidade de flores de todas as cores, formas e feitios. Mais à frente
as ovelhas, em rebanho, desenhavam complexos movimentos nas terras
de adil. Longe, em direcção a Mogadouro, os terrenos com formas
geométricas completavam-se numa manta de retalhos bordada de freixos,
pinheiros e carvalhos. Mal se distinguiam as casas, pouco me
importou, a bila não era a razão de eu estar ali.
Devo ter chamado à atenção, tão cedo,
num local tão pouco habitual… apareceu uma 4L. Era o alcaide
intrigado com o mirone. Cumprimentos trocados, comecei
a caminhada em direcção a Cinzas, alombando a última tecnologia em
fotografia digital, o almoço e uma capa de água, “não vá o diabo
tece-las”.
Não foi possível andar mais de cinco
metros consecutivos sem sair do caminho! Saltões, grilos, aranhas, borboletas,
abelhas, lagartos e lagartichas atravessavam-se no meu caminho,
encantando-me, obrigando-me a seguir sem tino mas com pontos de
referencia concretos.

Em Cinzas apanhei a caminho que vem de
Mogadouro. Na charca do Martinho, centenas de rãs cantavam os seus
mais belos versos amorosos, abafando o torcal, a rola e o amarlante.
Só a chincha, o paspalhaço e uma ave de rapina que gritava lá no
alto, se sobrepunham ao coro das apaixonadas rãs.
Ao avistar a cancela do lameiro,
remendada com arames e baraços dos fardos, recordei um Carvalho e um
Gonçalves, que, juntos, devem andar a passear por outros pastos
verdes, repletos de margaças floridas, despreocupados com as frísias
que teimavam em invadir lameiros e destruir os fenos. Como elas,
saltei paredes, passeei pela erva fresca, espreitei as sebes, só
conseguindo parar
ao encontrar um bonito ramo de flores azuis do linho selvagem.
Subi, nas Lamas das Vinhas, à estrada
que segue para Paradela. Mais uma vez espreitei a calçada romana. Os
cereais estão verdejantes, bem como a erva, tudo é verde, não
consegui ver nada da calçada. As plantas invasoras fizeram as minhas
delícias: papoilas, pimpilros, ervilhacas, margaças, tantas que os
meus conhecimentos de botânica não as abarcam! Até uma raposa veio olhar-me,
curiosa!
Sentei-me no chão para almoçar. Pensava
que a essa hora já estaria quase a chegar ao Cachão mas pouco me
afastei de Brunhoso!
Depois de almoçar continuei ainda algum
tempo a descer pela encosta à esquerda da Ribeira da Lagariça que
atravessei para subir à Hortelã. O calor das trovoadas de Maio
alagou todo o vale, tal como o suor as minhas costas. Entre
carrascos e sobreiros, tufos de madressilva, roseira brava e
coeirinhos de Nossa Senhora espalhavam perfume. O som da ribeira a
correr, fruto das trovoadas das últimas semanas, emprestava mais
magia ao cenário onde o simples respirar perturbava o equilíbrio.
Quando cheguei à Hortelã caíram as
primeiras gotas de água. Gordas, quentes, que semearam o silêncio em
redor. Só um pombo torcal se precipitou, indicando-me o seu ninho
feito de guiços de esteva.
Reabasteci-me de água na Fonte da Dona.
A chuva parou, o atroar percorria o vale do Sabor, morrendo lá para
os lados do Felgar, com um gemido.
Com o Poio à minha frente, do outro lado
da Ribeira de Juncaínhos, não resisti ao chamamento. Já conhecia o
caminho. Está quase a fazer um ano que fiz o percurso do alto de
Ferreiros ao alto da Fraga do Poio. Não é um caminho fácil, nem
sequer há caminho, mas aí é que está o entusiasmo.
Pouco a pouco, aproveitando os socalcos
com oliveiras (entretanto abandonadas), desce-se dos 550 aos 350
metros de altitude. Uma atitude menos cautelosa pode significar o
desastre, todos os cuidados são poucos. Quando me agarrava a uma
planta para que os meus pés não esbarassem nas lajes soltas de
xisto, tive uma surpresa. É buxo! Ora aqui está o Buxus
sempervirens! Estende-se desde o Canelo ao Sabor. Um olhar mais
atento, sem pressas, descobre outras raridades: cravinho, uma escova
estranha, com flores amarelas que mais parecem campainhas, um
gladíolo púrpura que dá pelo nome curioso de Gladiolus illyricus,
que tem uma beleza simples, selvagem.
Quando cheguei ao local onde cai a água
do Canelo, a natureza abriu-se num sorriso revelando toda a beleza
que só o conjunto de todos os sentidos pode captar. Tanta beleza que
os megapixels se envergonham de não poderem mostrar e arbustos e
árvores se vergam em sinal de veneração. Num local agreste como
este, os zambulhos estão floridos, há uma laranjeira com frutos
dourados e muitas figueiras estão carregadas de figos. O olhar
divide-se entre o líquido que jorra da fenda entreaberta na rocha
contra o azul do céu e o luxuriante vale, que se estende para
poente, ladeado de sobreiros e oliveiras que durante séculos beberam
a água da ribeira e o suor de gerações. Enxauguei o suor com a água fresca da ribeira...
Os ângulos dos raios de Sol indicaram-me
que estava na hora de abandonar o local. A subida para o Poio de
Cima é fácil. Encontrava-me eu a subir pelo meio das oliveiras que
algumas vezes já varejei, quando ouvi gritar o meu nome. Estou com
alucinações ou já a Natureza chama por mim? Foi Sol a mais ou
embebedei-me de verde e o cérebro toldou-se de imensidão, de
silêncios, ouvindo-me a mim próprio? Olhei largo. Do outro lado, na
lonjura recortada contra o céu, um ponto branco acenava-me. Gritando
a plenos pulmões, isentos de pó, de civilização, consegui fazer-me
entender: estava a subir até ao alto da Fraga do Poio.
Foi aí que outro apaixonado pelo verde
azeitona, pelos sobreiros, pelas safardas e pelas histórias que todos
eles têm para nos contar, me foi encontrar. Ele mais o seu
companheiro, um cão, Castanho. Lancei um olhar ao Cachão outro à Perdigosa. – Eu estou aqui, não estais sós.
Virei costas ao precipício e fui ao
encontro do FRibeiro. Explorámos mais uma vez os vestígios do castro
que nos parecem cada vez mais evidentes. Tentámos adivinhar
caminhos, habitações, protecções enquanto procurámos um Ramo de
Raposa que teimou em não se mostrar.
Regressámos a Brunhoso comentando a
matizes de verde, procurando o pilriteiro que afinal é o espinheiro,
a ginjeira brava carregada de frutos, os enormes sobreiros, os
freixos no ribeiro na Canadinha, as oliveiras centenárias, o sabor
doce dos estourotes e tantas, tantas outras coisas que só em
Brunhoso se vêm, só em Brunhoso se sentem, só em Brunhoso se vivem. |