| O CULTO DO PÃO NO NORDESTE | ||||
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No Nordeste Transmontano, o ciclo do pão compreende, para além dos vários momentos do seu cultivo e transformação, momentos festivos durante os quais se presta uma espécie de culto e ritualmente se consome, em convívio paralitúrgico. Cultiva-se o pão semeando-o no Outono, mondando-o (outrora) e adubando-o (hoje) na Primavera, ceifando-o e recolhendo-o no Verão, transformando-o em farinha no Inverno, por força da água que nesta estação mais abunda para mover as mós dos moinhos. É o ciclo do trabalho. Mas é justamente no mais crítico período do seu ciclo laborioso, aquele em que parece jazer debaixo da terra, sob o manto espesso da neve ou da geada - o Inverno - que o ritual festivo de culto ao pão acontece. São as festas do pão e do trabalho, aqui sempre associados; festas da abundância e da fertilidade, da carne, do fumeiro e do vinho novo; as festas do Solstício do Inverno, do Natal, Ano Novo e Reis; de S. Gonçalo e de S. Sebastião, de S. Estêvão e de S. João Evangelista. Terminado o círculo laborioso, inicia-se o círculo delicioso. E assim se compreende o dito popular "nesta terra terruca, quem não trabuca não manduca" e, desta feita, fica estabelecida a relação entre o trabalho, o pão e a festa. Não há autêntica festa do povo no Nordeste Transmontano sem a presença do trabalho e do seu fruto mais sensível: o pão, a carne e o vinho. Assim parece ser e, por isso, nas festas do Inverno o pão está bem no centro dos ritos e cerimoniais como símbolo polivalente: de abundância e fertilidade, de prestígio social e poder, de força e ordem institucional. O pão aparece abundantemente em forma de roscas como o ´mais significativo adorno do "charolo", que é assim uma espécie de andor em forma piramidal, todo coberto de roscas, dezenas e centenas de roscas de pão, das mais diversas formas, confeccionadas com ovos, açúcar ou mel e frutos secos da terra, ou simplesmente pão. A fartura e a abundância até ao esbanjamento nas festas de muitas aldeias da Raia Nordestina são assim manifestas no momento do ano mais pobre na natureza, tanto em alimentos como em calor, luz, vida e energia. O momento institucionalizado pelo povo para prestar e organizar o culto e a homenagem ao que é o seu alimento por excelência. Símbolo de riqueza e de prestígio social para aqueles que conseguem arrematar o maior número de roscas ou para os grupos sociais - solteiros e casados, os de uma e de outra aldeia vizinha, os de um ou de outro bairro da mesma aldeia - que conseguem apoderar-se da parte mais nobre e cobiçada do "charolo", a coroa ou o chapéu, confeccionado com as mais variadas e apetecidas doçarias. O símbolo da fertilidade é, por certo, o mais notório de todos os símbolos atribuídos ao pão nestas festividades do ciclo do Inverno. Por si só, pela sua quantidade e aparatosa ostentação, o pão é já uma forma de culto à Terra-Mãe que o gerou e criou no seu seio. A forma conferida às roscas sempre se relaciona com outros símbolos que o são também de fertilidade: a forma de estrela apela ao sol, estrela de primeira grandeza e sumo poder em calor e luz e sinal de fertilidade (esta forma é quase uma constante em todas as festas de S. Estêvão e dos Rapazes); a forma humana, louvor àqueles que, pelo esforço das suas mãos viabilizam a fertilidade da terra; a rosca zoomórfica representa a força criadora e física, a presença e a expressão da grande Mãe da Fertilidade; roscas ainda em forma de serpente, animal considerado pelas antigas civilizações, de que é protótipo do próprio Livro do Génesis, como signo da fecundidade e da sabedoria (roscas em formas zoomórficas e humanas aparecem na festa de S. Gonçalo, adornando o "charolo"). A rosca de pão aparece, bem assim, como elemento central nos símbolos do poder, da organização, da ordem, nas festas dos Rapazes e de S. Estêvão, ostentada pelos mordomos nas suas varas, pelos meirinhos nos seus estandarte, pelos juízes nas suas bandeiras, pelos "reis" nas suas coroas, que já por si sós são símbolos inquestionáveis de poder; roscas em miniatura podem ver-se na lapela dos casacos dos rapazes, principais organizadores de algumas destas festividades do Inverno e únicos participantes de outras, consoante as tradições das diferentes aldeias, mas sempre o pão aqui como símbolo do poder. É ainda o pão símbolo de força e virilidade nestes rituais de culto festivo. Nas provas de resistência física, que os jovens iniciados das festas dos rapazes devem prestar, os vencedores têm como prémio uma simples rosca de pão. Trata-se da corrida à rosca e da "galhofa", uma espécie de luta livre greco-romana, em que os jovens lutam semi-nus, corpo a corpo, até que um caia vencido, de costas no chão. A rosca de pão constitui incentivo para os bailadores da dança da rosca, que a ostentam bem alto enquanto dançam e que a repartem, no final, entre si e por todo o povo que assiste e que aplaude entusiasticamente esta exibição solene e, ao mesmo tempo, informal. O "charolo" integra-se no ritual litúrgico da missa e na procissão. É guardado religiosamente dentro do templo, como se do andor do santo se tratasse, é benzido pelo sacerdote, no decorrer do acto litúrgico festivo. No final é leiloado no adro da igreja, peça a peça, disputado pelos grupos sociais, num confronto animado que sempre acontece, e comido por todos, preceitualmente. A bênção do pão assume características profilácticas, extirpação das moléstias e das pragas, prevenção contra os maus olhados e presságios, espíritos maléficos e toda a espécie de doenças dos homens, dos animais e das culturas. Prestar o culto ao pão é festejar o trabalho do ano inteiro, propiciar aos santos os seus benefícios, ofertando-lhes, para isso, os frutos da terra. |
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