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Artesanato: Que futuro? |
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O artesanato remete-nos sempre para uma memória histórica local que nos fala da materialidade das ideias, das necessidades quotidianas ou, até, da vida de relação. Esta materialidade é conseguida através de uma ars tecnica que, para além de uma instrumentação pura e simples com que se executa uma determinada operação, nos reenvia para uma série de processos e preceitos ligados a essa operação produtora. Essa produção pode assumir uma diversidade enorme de registos que vão do saber-fazer técnico a variadas interpretações ético-religiosas do mundo, passando por formas de moldar espaços e arquitecturas, objectos, personalidades ou narrativas, elaboradas segundo concepções específicas de tempos de trabalho e produção, de relação e consumo. Por outro lado, o produto artesanal regional ou local é, a maior parte das vezes, apreendido e idealizado como um todo homogéneo; contudo, ao ser estudado em pormenor, mostra-nos as diversidades e especificidades funcionais e estéticas da sua historicidade. Assim, a nível trasmontano, não é difícil estabelecer tipologias de tipo urbano/rural, muitas vezes embricando-se em alguns sectores, ou, então, numa perspectiva diacrónica, avaliar da "evolução" ou "permanência" de artefactos ou gramáticas decorativas. É sabido que o saber-fazer tradicional, a forma de o conceber e executar alguém falou em «teoria da paciência» e o modo de transmissão desse conhecimento parece estar perdido. Em termos históricos, penso que o primeiro a ser ameaçado foi a tradição artesanal urbana, aqui mais aberta às influências mercantilistas, industrializantes e massificadoras. Em grande parte, o mundo rural transmontano conseguiu manter a sua especificidade até mais recentememte, graças à interioridade, ao ensimesmamento cultural e económico, sendo apresentado hoje como um dos últimos redutos de um modus faciendi nostalgicamemte em extinção, depósito derradeiro de saberes tradicionais que antevemos, já, póstumos. Em Trás-os-Montes, talvez se possa falar, até bem perto de nós, de uma cultura da pedra e da madeira o resto era acessório. Na habitação só as paredes eram de pedra granito, xisto ou ardósia para a cobertura , o resto era de madeira estrutura e mobiliário. É verdade que predominava o tratamemto funcional da mesma, estando a exuberância decorativa ligada, somente, a determinados pormenores e a objectos simbolicamente valorizados relacionados com as actividades económicas e religiosas ou de relação mas onde começam umas e acabam as outras? Grande parte dos objectos de uso quotidiano ou cíclico desde o mobiliário (bancos e bancas, tripeças, escanos, armários, cómodas, camas, mesas variadas, etc.) às alfaias de trabalho (carros-de-bois, jugos, arados, charruas, grades, medidas aferidas para sólidos e líquidos, etc., etc.), desde os brinquedos das crianças (dos peões variados à diversidade dos carros, passando pelas miniaturas das alfaias) às máscaras festivas e aos ex-votos e esculturas (de trabalho e expressividade em que se empenha o saber, a paciência e a alma) têm a madeira, em exclusividade ou em acessoria, como matéria-prima. Poderíamos dizer, sem hesitação, que a madeira era matéria-prima para qualquer tipo de artefacto isto é, pau para toda a colher... Matéria-prima barata, à mão de semear, hierarquizada consoante a nobreza atribuida, conhecida no pormenor e adequação da idade, do veio e da textura, das características de resistência à meteorologia e à função específica: nogueira, madeira nobre para nobilíssima arte de mestre marceneiro; castanho bravo para a arquitectura, mobiliário e alfaias diversas, e para a arte também; amieiro para rodízios, freixo para eixos de carros-de-bois, sardão, lodão e outras para necessidades de esforço e resistência mais exigentes ainda. Obviamente, só depois de preparação específica adequada é que eram trabalhadas e aplicadas. Não era uma arte só de alguns, mas também não era de todos... Da tecnologia tradicional ligada a determinados ciclos produtivos são visíveis, apenas, os últimos exemplares. Estou a pensar, por exemplo, nos Ciclos do Linho ou da Lã: só em museu, ou quase, se podem apreciar os objectos que lhe deram vida, forma e conteúdo. Quando olho para algumas rocas nordestinas do século XIX ou de inicíos deste, ainda pasmo sempre: na parte superior vejo, quase sempre, flechas de catedrais góticas (também visíveis em muitos espelhos de fechaduras de portas) e, a condizer, no corpo da roca, cavaleiros medievais individualizados (aqueles das pernas cumpridas) e, em muitas delas, representações zoomórficas e antropomórficas que em pouco diferem, se calhar, das das suss antecessoras rupestres. Comparem-se. De permeio há sempre muita decoração geométrica, quase sempre assimétrica, à mistura com corações frechados e simbologia fálica a remeter-nos, se calhar, para vida de relação mais íntima e a ensinar-nos que um objecto nunca se esgota na sua funcionalidade, antes é produto de contextos culturais e civilizacionais globais: é o objecto-total de M. Mauss. Reparem, também, nas talas do gado, do foro, da roçada ou de outras tarefas comunitárias, arquivos elaborados de normatividades em comunhão com a comunidade que as concebia, executava e aplicava. O mesmo se poderá dizer, em registo diverso, da religiosidade expressionista bem vincada em ex-votos, em alminhas ou imagens dos santos protectores. Hoje, o artesanato tradicional já não é produto de uma estrutura económica global, antes se situa em domínios específicos ou marginais de produção e consumo cultural. É verdade que ainda há funcionalidade para o fabrico dos variadíssimos tipos de cestaria de verga de castanho bravo, de vime, de silva, de salgueiro, de giesta ou piorno para variadíssimos fins: cabazes, cacifos, canastras, cestos e cestas variadíssimas. Ainda instrumemtos musicais são aqui ou ali produzidos, já como excepção, na zona de Miranda do Douro, ou em Nogueira, perto de Bragança. As máscaras ligadas a ciclos festivos tradicionais tão característicos de Trás-os-Montes são artefactos bem trabalhados em Ouzilhão pelo Sr. João Manuel Esteves e em Vila Boa (aqui conjuntamente com esculturas feitas a partir de troncos) pelo Sr. José David Afonso. E há, ainda, poucos, que fazem tratamemto escultórico da madeira facsimilando objectos agrícolas tradicionais em escala reduzida, ou associe a madeira ao aço temperado em Palaçoulo ou na Especiosa e, como excepção, um ou outro trabalho ocasional, já de autor muitas vezes, lembrando a arte pastoril arcaica: trabalhos em canivetes, facas, foles e outros artefactos. O que parece estar a verificar-se, para além das alterações dos enquadramemtos tradicionais, é a modificação dos valores de uso e de representação, refuncionalizando-se e reconstuíndo-se uma identidade do objecto revalorizando-se, porventura, o valor formal do produto em detrimento do valor substancial , ao mesmo tempo que se reclassifica o artesão, agora individualizado, desconectado do viver e sentir ancestrais e subjugado, a mais das vezes, às lógicas do mercado. Este processo de descontextualização e até do desapossamento que pode provocar, está intimamemte ligado ao processo de mercantilização cultural do artesanato tradicional, provocando alterações de forma e de substância nos processos produtivo, de circulação e de consumo cultural. Enquanto que, tradicionalmemte, o valor de uso era dominante nas comunidades produtoras dos seus próprios antefactos, hoje, com a apropriação desses objectos por parte das lógicas dominantes do mercado e da própria cultura, valoriza-se, preferencialmente, a vertente estética, instrumentalizando-se o objecto numa economia do ver e do sentir alheios ao seu contexto produtor, seja em exposição museológica ou domiciliária. A posse do objecto parece dar-nos, aparentemente, a posse da ancestralidade imaginada... Texto
publicado na revista "Amigos de Bragança" |
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visto com os seus olhos mas use a resolução 800x600.. |
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