| O JOGO DA PORCA | ||||
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"Jogar a porca" ou "correr a porca" era brincadeira muito apetecida da garotada e do rapazio de Moimenta, até meados dos anos 60. A porca era jogo de garotos, desde a idade de ir para a escola até aos 15 ou 16 anos. Os adultos e os rapazes com barba na cara não jogavam a porca. Distraíam-se a jogar as cartas, os paus, o fito, o pulo, o calhau ou o ferro. As crianças com menos de 7 anos também não eram aceites no jogo da porca. Eram pequenas de mais e podiam magoar-se. Essas, jogavam o bilro, o serrobico, a tinha e os quadradinhos, ou iam para junto das garotas jogar a macaca ou as pedrinhas. A porca não era brincadeira de todos os dias. Bem apetecia jogar diariamente, no final da escola, no Melhadouro. Mas quem podia? Mal o professor dizia até à manhã, todos corriam para casa cumprir as suas obrigações domésticas. Os filhos dos lavradores tinham sempre que tapar uma água, aproveitar umas decaídas, tanger as vacas ao lameiro ou substituir quem lá as guardava. E os filhos dos cabaneiros não tinham melhor sorte. Havia sempre uma cabra ou uma burra para cuidar, um feixe de lenha para juntar nos baldios e trazer para casa ou uma corridinha à vizinha Espanha para trazer mercearia, uma "panocha", ou um naco de carne alentejana. Além disso, todos tinham a lição para estudar e as contas para fazer, e quase todos tinham um irmãozinho mais novo para cuidar ou gente idosa para acompanhar, substituindo a mãe, que corria para o campo mal o estudante chegava. Mas aos Domingos, grupos de crianças e adolescentes jogavam a porca no Melhadouro, tardes inteiras, até ao escurecer, quando o toque das Trindades recomendava o regresso ao lar, evitando o mais que certo castigo paterno, reservado àqueles que chegavam tarde. Mas também se jogava a porca no campo, aos dias de semana, em sítios planos e livres de monte, com cerca de 100 m2, mais ou menos. Era vulgar ver sítios de correr a porca no caminho das Balinhas, logo a seguir à última palheira da povoação, nos "sartégados", perto da nascente e em várias lamas. Mas o jogo da porca por excelência, o mais participado, o mais aplaudido, aquele por que todos sonhavam, era ao Domingo, no Melhadouro, sítio grande, plano e sem obstáculos. O sítio ideal para executar este jogo. O jogo da porca não era normalmente improvisado. Os interessados, 6 pelo menos, combinavam o encontro, previamente, nos intervalos da escola, no adro onde se encontravam para ir à Missa com a família, ou noutro sítio qualquer. Marcavam a hora do encontro e definiam o local. Um encarregava-se de arranjar a porca - uma bola de madeira cuidadosamente moldada, com cerca de 5 cm de diâmetro, feita da torga de uma urze - e todos seleccionavam o seu pau de correr a porca - um bastão de madeira, com uma extremidade em forma de L com ângulo arredondado, cerca de 110 cm de comprimento e uma espessura adaptada à mão de cada jogador. No sítio do jogo, de terra dura, fazia-se o curro e à volta deste as chonas, tantas quantas os jogadores menos uma, distanciadas umas das outras cerca de 120 cm. O curro era uma cova redonda com cerca de 30 cm de diâmetro e 10 cm de profundidade. As chonas eram também covas arredondadas, mais pequenas do que o curro, com 15 cm de diâmetro e 8 cm de profundidade, mais ou menos. A distância entre as chonas era sempre ligeiramente maior do que o comprimento do maior pau de correr a porca. Por isso, depois de definir as marcações no terreno, não se deixava aumentar o número de jogadores. Isso obrigaria a redefinir as chonas, alargando o círculo em volta do curro, de forma a respeitar as necessárias distâncias. Para haver jogo da porca era necessário um porqueiro, e porqueiros voluntários não havia. Por isso, um jogador, normalmente o mais velho ou o que tinha maior ascendência no grupo, de pé, colocava os calcanhares junto ao curro e estendia os braços para a frente, mantendo-os paralelos, afastados um do outro entre 40 e 50 cm, e neles recebia, um a um, o pau de correr a porca de cada jogador, previamente identificado com uma marca feita a navalha ou de outra forma qualquer. Então, este atirador de paus lançava-os para trás, o mais longe que podia, por sobre a sua cabeça. O primeiro porqueiro era o dono do pau que ficasse mais próximo do curro. Em caso de empate repetia-se o lançamento dos paus empatados até atingir o objectivo. E começava o jogo com o porqueiro entre duas chonas, com a porca na mão, e os restantes jogadores cada um ocupando a sua chona. De seguida, o porqueiro lançava a porca ao ar, a cerca de 3 metros de altura, direitinha, procurando que caísse dentro do curro, gritando: - A porca vai baleira! E, enquanto agitavam os seus paus no ar procurando evitar que a porca caísse directamente no curro, todos os jogadores respondiam: - Com 100 porcos à coleira! Se a porca caía directamente no curro, o porqueiro vitorioso colocava o seu pau de correr a porca junto a uma chona e ditava mudança de chonas, gritando: - Serramudinhas haja! Acto contínuo, cada jogador tinha que mudar de chona. Aquele que no decurso das serramudinhas ficasse sem chona era o novo porqueiro. E recomeçava o jogo, lançando a porca ao ar. Mas se a porca não caía directamente no curro, começava a corrida da porca, com o pobre do porqueiro atrás dela. Os jogadores passavam-na de uns para os outros com os seus paus, levando-a para o mais longe possível do curro, evitando que o porqueiro conseguisse tocar-lhe. Quando, ao fim de muito esforço, o porqueiro, arfante e transpirado, conseguia finalmente tocar na porca, todos corriam, cada qual para sua chona. Se o porqueiro corria mais e conseguia ocupar uma chona, o dono desta passava a ser o novo porqueiro. Então, ia buscar a porca e recomeçava o jogo, lançando-a ao ar, do modo já descrito anteriormente, gritando: - A porca vai baleira! Mas se o porqueiro não conseguia roubar uma chona, então, tinha que tanger a porca para o curro. Ia buscá-la e orientava-a em direcção ao curro, dando-lhe pequenos toques com o seu pau de correr a porca. Os restantes jogadores podiam dificultar a tarefa do porqueiro, afastando a porca do curro, batendo-lhe com os seus paus. Mas tinham que ter muito cuidado, pois o porqueiro, depois de tocar na porca pela primeira vez, adquiria o direito de, a qualquer momento, ocupar a primeira chona que apanhasse, deixando, assim, de ser porqueiro. Quando o porqueiro se aproximava do curro, procurava evitar os ataques dos restantes jogadores, cada vez mais frequentes e ousados, protegendo com os seus pés, que mantinha juntos da porca, fazendo um ângulo o mais apertado possível. Finalmente, o porqueiro conseguia meter a porca no curro. Então, vitorioso, ditava mudança de chona, gritando serramudinhas, do modo que já foi referido anteriormente. ... E recomeçava o jogo. Armindo Cardoso Publicado no Mensageiro de Bragança em 14.04.2000 |
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Melhor
visto com os seus olhos mas use a resolução 800x600.. |
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