Rio de Onor continua a ser o
exemplo de povo mais tipicamente comunitário do nosso País,
mantendo-se verdadeira a proposição que Jorge Dias escreveu há
mais de quarenta anos. Resistindo ao tempo e às influências
individualistas da sociedade actual, embora reflectindo, de certa
forma, os paradigmas teóricos dos investigadores e dos meios de
comunicação, este povo mantém todas as formas fundamentais da
secular organização comunitária. Nelas se incluem alguns
rituais festivos do Inverno, como as localmente chamadas
"Cepas das Almas", a recolha da lenha no monte, levada
a cabo pelos rapazes solteiros, no dia de Todos os Santos, a 1 de
Novembro, e o consequente leilão cujo benefício reverte a favor
das almas. Será, por certo, o contributo financeiro angariado
por um grupo social num espaço comum da aldeia (o monte) para a
celebração do ritual de sufrágio comunitário dauqeles que
assim tendo vivido, assim são lembrados e homenageados na morte.
O outro ritual festivo de cariz igualmente
comunitário é a Festa dos Reis, tradicionalmente celebrada a 6
de Janeiro, mas antecipada hoje para o fim de semana mais
próximo, por conveniência de grande parte dos jovens, seus
principais protagonistas, que se encontram ausentes durante os
dias úteis da semana. As "Cepas das Almas" e a Festa
dos Reis são dinamizadas pelos jovens solteiros, liderados pelos
seus mordomos, em quem o conselho (principal instituição
comunitária da aldeia) delega as devidas competências
funcionais, atingem em Rio de Onor "a máxima expressão
comunitária" (1). Trata-se de um conjunto de ritos
festivos propiciatórios e profilácticos que, analisados
coerentemente no interior do contexto social em que se
desenrolam, nos conduzem naturalmente a esta conclusão.
Festa dos Reis ou Festa dos rapazes. Por dois
dias os jovens solteiros comandam a vida da aldeia, substituindo
a instituição comunitária do conselho. Por uma espécie de
delegação de competências para a organização de uma
festividade cíclica, por sinal a mais expressiva para o homem
agrário: a festa da Natureza, da fertilidade, da purificação e
da religação dos vivos aos mortos, do profano ao sagrado. O que
não deixa de ser significativo: "num tipo de família
essencialmente patriarcal, os jovens assumem o mando, dirigem as
festas" (2). E fazem-no incorporando cabalmente os seus
papéis de mordomos, de animadores e protagonistas da festa, os
"caretos". Nesta qualidade, existiam ainda num passado
recente outros animadores: a
"filandorra" e suas
acompanhantes, as "madamas". Simples mortais que assim
assumem os papéis de seres superiores, uma espécie de
sacerdotes sem o saberem, que ligam os vivos e os mortos, em
tempo de crise como é a entrada num novo ciclo agrário.
Os ritos da festa
Participam na festa todos os rapazes solteiros,
a partir da idade da adolescência, consoante os casos e as
circunstâncias de cada um, de onde também a designação de
Festa dos Rapazes. "É indiscutivelmente um rito de
puberdade" (3).
Todos os rituais apontam no sentido que Jorge
Dias indicou. Toda a organização da festa lhes pertence e todos
os principais momentos são por eles protagonizados, cabendo aos
restantes membros e instituições neles participarem ou não.
A ronda pela aldeia, pela madrugada, chamada
alvorada, com gaiteiro e bombo, destina-se a chamar os rapazes
para a festa e avisar o povo do momento que se segue, o
peditório.
O peditório, de porta a porta, é realizado
por dois rapazes que se transformam em caretos:
"vestem.se de maneira bizarra e põem máscaras de folheta,
pintadas, com bigodes e sobrancelhas de pelos" (4). A
maneira bizarra de que nos fala Jorge Dias é um fato de guarda
fiscal enfeitado com tiras envolventes de fitas coloridas, luvas
e um bastão para afastar os transeuntes à sua passagem, criando
desta maneira o espaço de que necessitam para as suas
brincadeiras e tropelias. Sentem-se completamente à vontade para
executarem todo o tipo de anomias, por aquilo que um vizinho da
terra nos confessa: "os caretos, nunca se sabe quem
são".
Seja como for, o peditório é uma acção dos
mascarados inserida no conjunto de todas as outras que realizam
nestas aldeias do Nordeste, no Solstício do Inverno e início do
ano, destinadas à expurgação dos males da comunidade, à
preparação para o novo ciclo reprodutivo da Natureza, à
propiciação ao sobrenatural para que multiplique por muitas
vezes o que se oferece ao mascarado, que é como quem diz, ao
sacerdote que, por sua vez, oferecerá ao santo.
No ritual do peditório, o careto pede e exige.
O seu aspecto ameaçador e adereços condizentes ajudam-no na
tarefa: a máscara e o fato escondem a sua identidade e
conferem-lhe total liberdade de acção, os chocalhos e
campainhas à cintura fazem o ruído suficiente para que todos os
vizinhos se sintam "obrigados" (que não é o caso) a
dar umas chouriças ou qualquer peça do fumeiro para a festa. É
a "voltinha da chouriçada", no dizer de um morador da
terra.
Até alguns anos, acompanhavam os caretos e o
gaiteiro no peditório mais três figurantes: a filandorra e as
duas madamas. Etimologicamente a palavra "filandorra"
poderá significar fiadeira. É exactamente a fiar e a bailar que
ela se apresenta e o que faz em todo o percurso do peditório.
Trata-se de um jovem vestido de mulher, com renda na cara para
não ser reconhecido, roca numa mão e fuso na outra, sempre a
fiar. A filandorra enquadra-se igualmente nas funções dos
mascarados destinadas a assegurar a boa marcha da comunidade,
através da "reprodução dos trabalhos fundamentais para
o grupo" (5).
As madamas (rapazes vestidos de mulher) seriam
as damas acompanhantes da filandorra, em todo o ritual do
peditório, dançando ao toque da gaita de foles e ao ritmo do
tambor.
Todas estas figuras, filandorra e madamas,
desapareceram do palco da festa há mais de vinte anos. A D.
Joana recorda a sua última aparição em cena, aquela que foi,
no seu entender, a última festa dos Reis levada a rigor. "Fizeram
a festa como deve ser, para as filmagens, com a filandorra e
tudo. Era para o filme de António Reis e Margarida Cordeiro. A
sério como aquela nunca mais se fez. No dia anterior deram uma
ronda pela aldeia, de gaiteiros, tambores, ferrinhos, gadanhas,
garrafas com garfos dentro... Foi toda a noite. Faziam fogueiras
pelas ruas, cantavam e dançavam. De manhã, toca a almoçar. À
noite, a ceia à moda antiga; não havia copos nem pratos. As
travessas cheias de carne estavam espalhadas pelas mesas, aqui e
acolá, tudo a comer em conjunto e eles a filmar. Houve baile
todo o dia com gaiteiro e bombo. Como antes já nunca mais".
Mas a Festa dos Reis permanece viva em Rio de
Onor. Os rapazes reunem-se e alguns vêm de longe para festejar.
Liderados pelos mordomos, organizam a festa, compram vitela,
chibos ou carneiros para as refeições desse dia. A confecção
fica hoje a cargo das mães dos mordomos, o que não deixa de ser
uma inovação e utilizam a casa do povo que está devidamente
equipada para estas situações, evitando assim o recurso de
outrora de pediram uma casa emprestada. As moças e restante
passoal juntam-se aos rapazes à noite, depois da ceia, para o
baile. O convívio prossegue agora com toda a
comunidade a participar na
festa que, até àquele momento, era só para rapazes.
Pela noite dentro cantam-se os reis, de casa em
casa. Este será o ritual que encerra a festa propriamente dita.
O convívio dos rapazes vai continuar nas noites seguintes: há
que dar consumação ao peditório dos caretos; há que consumir
o fumeiro que foi oferecido à festa, o que sempre é motivo para
um renovado convívio festivo.
O Ramo
O ritual do Ramo é protagonizado pelas moças
da terra, muito embora coincida no tempo de realização com a
festa dos rapazes. Dias antes, as zeladoras da santa (Nossa
Senhora de Fátima) fazem o seu peditório pelas casas da aldeia.
A finalidade é reunir géneros necessários para o arranjo do
ramo. "A base fundamental é a chouriça e algum salpiacão;
chegam a juntar mais de 15 quilos de chouriças, fora os
salpicões", explica um morador. No entanto, outros géneros
podem ajudar a compôr o ramo, algum tipo de guloseimas,
chocolates e bolos confeccionados pelas próprias moças.
O ramo dos Reis assim preparado integra a
liturgia da missa, "é conduzido em cortejo e com o
acompanhamento de todos os habitantes para a igreja" (6). No
fim da missa é leiloado no adro, à frente do povo e perante a
cobiça de alguns forasteiros que aqui se deslocam com a
finalidade de adquirirem o fumeiro do ramo. O resultado do
leilão reverte a favor da Santa.
Idêntico ao ritual do "charolo"
(andor adornado com roscas de pão) celebrado em outras terras do
Nordeste, o ramo enquadra-se cabalmente nas festividades
agrárias, de celebração da fertilidade e da abundância e
possui um significado perfeitamente condizente com a nossa
religiosidade popular: oferecer à divindade o que de melhor se
possui, para que a divindade seja generosa, ao ponto de
multiplicar as oferendas, no novo ano e no ciclo agrário que se
inicia na Natureza.
Notas
(1 Joaquim Pais de Brito (1996), "Retrato
de Aldeia com Espelho", Publicações Dom Quixote,
Lisboa.
(2) Belarmino Afonso, "As Festas dos
Rapazes na Lombada", in Brigantia, vol. I, Jul-Set.
1981.
(3) Jorge Dias (1981), "Rio de Onor,
Comunitarismo Agro-pastoril", Editorial Presença,
Lisboa.
(4) Jorge Dias, Op. Cit.
(5) Julio Caro Baroja (1953), "Mascaradas
de Invierno en España", Madrid.
(6) Joaquim Pais de Brito, Op. Cit.
|