Rio de Onor 
A Festa dos Reis

António A. Pinelo Tiza


Rio de Onor continua a ser o exemplo de povo mais tipicamente comunitário do nosso País, mantendo-se verdadeira a proposição que Jorge Dias escreveu há mais de quarenta anos. Resistindo ao tempo e às influências individualistas da sociedade actual, embora reflectindo, de certa forma, os paradigmas teóricos dos investigadores e dos meios de comunicação, este povo mantém todas as formas fundamentais da secular organização comunitária. Nelas se incluem alguns rituais festivos do Inverno, como as localmente chamadas "Cepas das Almas", a recolha da lenha no monte, levada a cabo pelos rapazes solteiros, no dia de Todos os Santos, a 1 de Novembro, e o consequente leilão cujo benefício reverte a favor das almas. Será, por certo, o contributo financeiro angariado por um grupo social num espaço comum da aldeia (o monte) para a celebração do ritual de sufrágio comunitário dauqeles que assim tendo vivido, assim são lembrados e homenageados na morte.

O outro ritual festivo de cariz igualmente comunitário é a Festa dos Reis, tradicionalmente celebrada a 6 de Janeiro, mas antecipada hoje para o fim de semana mais próximo, por conveniência de grande parte dos jovens, seus principais protagonistas, que se encontram ausentes durante os dias úteis da semana. As "Cepas das Almas" e a Festa dos Reis são dinamizadas pelos jovens solteiros, liderados pelos seus mordomos, em quem o conselho (principal instituição comunitária da aldeia) delega as devidas competências funcionais, atingem em Rio de Onor "a máxima expressão comunitária" (1). Trata-se de um conjunto de ritos festivos propiciatórios e profilácticos que, analisados coerentemente no interior do contexto social em que se desenrolam, nos conduzem naturalmente a esta conclusão.

Festa dos Reis ou Festa dos rapazes. Por dois dias os jovens solteiros comandam a vida da aldeia, substituindo a instituição comunitária do conselho. Por uma espécie de delegação de competências para a organização de uma festividade cíclica, por sinal a mais expressiva para o homem agrário: a festa da Natureza, da fertilidade, da purificação e da religação dos vivos aos mortos, do profano ao sagrado. O que não deixa de ser significativo: "num tipo de família essencialmente patriarcal, os jovens assumem o mando, dirigem as festas" (2). E fazem-no incorporando cabalmente os seus papéis de mordomos, de animadores e protagonistas da festa, os "caretos". Nesta qualidade, existiam ainda num passado recente outros animadores: a

"filandorra" e suas acompanhantes, as "madamas". Simples mortais que assim assumem os papéis de seres superiores, uma espécie de sacerdotes sem o saberem, que ligam os vivos e os mortos, em tempo de crise como é a entrada num novo ciclo agrário.

Os ritos da festa

Participam na festa todos os rapazes solteiros, a partir da idade da adolescência, consoante os casos e as circunstâncias de cada um, de onde também a designação de Festa dos Rapazes. "É indiscutivelmente um rito de puberdade" (3).

Todos os rituais apontam no sentido que Jorge Dias indicou. Toda a organização da festa lhes pertence e todos os principais momentos são por eles protagonizados, cabendo aos restantes membros e instituições neles participarem ou não.

A ronda pela aldeia, pela madrugada, chamada alvorada, com gaiteiro e bombo, destina-se a chamar os rapazes para a festa e avisar o povo do momento que se segue, o peditório.

O peditório, de porta a porta, é realizado por dois rapazes que se transformam em caretos: "vestem.se de maneira bizarra e põem máscaras de folheta, pintadas, com bigodes e sobrancelhas de pelos" (4). A maneira bizarra de que nos fala Jorge Dias é um fato de guarda fiscal enfeitado com tiras envolventes de fitas coloridas, luvas e um bastão para afastar os transeuntes à sua passagem, criando desta maneira o espaço de que necessitam para as suas brincadeiras e tropelias. Sentem-se completamente à vontade para executarem todo o tipo de anomias, por aquilo que um vizinho da terra nos confessa: "os caretos, nunca se sabe quem são".

Seja como for, o peditório é uma acção dos mascarados inserida no conjunto de todas as outras que realizam nestas aldeias do Nordeste, no Solstício do Inverno e início do ano, destinadas à expurgação dos males da comunidade, à preparação para o novo ciclo reprodutivo da Natureza, à propiciação ao sobrenatural para que multiplique por muitas vezes o que se oferece ao mascarado, que é como quem diz, ao sacerdote que, por sua vez, oferecerá ao santo.

No ritual do peditório, o careto pede e exige. O seu aspecto ameaçador e adereços condizentes ajudam-no na tarefa: a máscara e o fato escondem a sua identidade e conferem-lhe total liberdade de acção, os chocalhos e campainhas à cintura fazem o ruído suficiente para que todos os vizinhos se sintam "obrigados" (que não é o caso) a dar umas chouriças ou qualquer peça do fumeiro para a festa. É a "voltinha da chouriçada", no dizer de um morador da terra.

Até alguns anos, acompanhavam os caretos e o gaiteiro no peditório mais três figurantes: a filandorra e as duas madamas. Etimologicamente a palavra "filandorra" poderá significar fiadeira. É exactamente a fiar e a bailar que ela se apresenta e o que faz em todo o percurso do peditório. Trata-se de um jovem vestido de mulher, com renda na cara para não ser reconhecido, roca numa mão e fuso na outra, sempre a fiar. A filandorra enquadra-se igualmente nas funções dos mascarados destinadas a assegurar a boa marcha da comunidade, através da "reprodução dos trabalhos fundamentais para o grupo" (5).

As madamas (rapazes vestidos de mulher) seriam as damas acompanhantes da filandorra, em todo o ritual do peditório, dançando ao toque da gaita de foles e ao ritmo do tambor.

Todas estas figuras, filandorra e madamas, desapareceram do palco da festa há mais de vinte anos. A D. Joana recorda a sua última aparição em cena, aquela que foi, no seu entender, a última festa dos Reis levada a rigor. "Fizeram a festa como deve ser, para as filmagens, com a filandorra e tudo. Era para o filme de António Reis e Margarida Cordeiro. A sério como aquela nunca mais se fez. No dia anterior deram uma ronda pela aldeia, de gaiteiros, tambores, ferrinhos, gadanhas, garrafas com garfos dentro... Foi toda a noite. Faziam fogueiras pelas ruas, cantavam e dançavam. De manhã, toca a almoçar. À noite, a ceia à moda antiga; não havia copos nem pratos. As travessas cheias de carne estavam espalhadas pelas mesas, aqui e acolá, tudo a comer em conjunto e eles a filmar. Houve baile todo o dia com gaiteiro e bombo. Como antes já nunca mais".

Mas a Festa dos Reis permanece viva em Rio de Onor. Os rapazes reunem-se e alguns vêm de longe para festejar. Liderados pelos mordomos, organizam a festa, compram vitela, chibos ou carneiros para as refeições desse dia. A confecção fica hoje a cargo das mães dos mordomos, o que não deixa de ser uma inovação e utilizam a casa do povo que está devidamente equipada para estas situações, evitando assim o recurso de outrora de pediram uma casa emprestada. As moças e restante passoal juntam-se aos rapazes à noite, depois da ceia, para o baile. O convívio prossegue agora com toda a

comunidade a participar na festa que, até àquele momento, era só para rapazes.

Pela noite dentro cantam-se os reis, de casa em casa. Este será o ritual que encerra a festa propriamente dita. O convívio dos rapazes vai continuar nas noites seguintes: há que dar consumação ao peditório dos caretos; há que consumir o fumeiro que foi oferecido à festa, o que sempre é motivo para um renovado convívio festivo.

O Ramo

O ritual do Ramo é protagonizado pelas moças da terra, muito embora coincida no tempo de realização com a festa dos rapazes. Dias antes, as zeladoras da santa (Nossa Senhora de Fátima) fazem o seu peditório pelas casas da aldeia. A finalidade é reunir géneros necessários para o arranjo do ramo. "A base fundamental é a chouriça e algum salpiacão; chegam a juntar mais de 15 quilos de chouriças, fora os salpicões", explica um morador. No entanto, outros géneros podem ajudar a compôr o ramo, algum tipo de guloseimas, chocolates e bolos confeccionados pelas próprias moças.

O ramo dos Reis assim preparado integra a liturgia da missa, "é conduzido em cortejo e com o acompanhamento de todos os habitantes para a igreja" (6). No fim da missa é leiloado no adro, à frente do povo e perante a cobiça de alguns forasteiros que aqui se deslocam com a finalidade de adquirirem o fumeiro do ramo. O resultado do leilão reverte a favor da Santa.

Idêntico ao ritual do "charolo" (andor adornado com roscas de pão) celebrado em outras terras do Nordeste, o ramo enquadra-se cabalmente nas festividades agrárias, de celebração da fertilidade e da abundância e possui um significado perfeitamente condizente com a nossa religiosidade popular: oferecer à divindade o que de melhor se possui, para que a divindade seja generosa, ao ponto de multiplicar as oferendas, no novo ano e no ciclo agrário que se inicia na Natureza.

Notas
(1 Joaquim Pais de Brito (1996), "Retrato de Aldeia com Espelho", Publicações Dom Quixote, Lisboa.
(2) Belarmino Afonso, "As Festas dos Rapazes na Lombada", in Brigantia, vol. I, Jul-Set. 1981.
(3) Jorge Dias (1981), "Rio de Onor, Comunitarismo Agro-pastoril", Editorial Presença, Lisboa.
(4) Jorge Dias, Op. Cit.
(5) Julio Caro Baroja (1953), "Mascaradas de Invierno en España", Madrid.
(6) Joaquim Pais de Brito, Op. Cit.



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