|
Contemplado no sentido da linha
de cumeada, ou, cá de baixo, das cercanias do cemitério, é que
se compreende o motivo por que lhe chamam o "Frade":
perfeitamente se distingue um enorme capuz monástico, de pedra
contorcida e chamuscada pelo incêndio dos séculos, um pouco
afastado do fraguedo principal onde existia, e penso que ainda
existe, de díficil acesso e meio dissimulada por giestas e
carquejas, uma gruta capaz de abrigar das intempéries, à
vontade, três ou quatro pessoas.
Ganhou o rochedo, por via da fradesca
similitude, significado mítico. Conta-se que, em invernoso
entardecer, medievo monge ali se radicou a fim de sarar, com as
compressas e unguentos naturais da solidão da serra, as feridas
abertas na alma pelo diamante de um amor impossível. Como nem
ambiente e renúncia lhe houvessem aquietado a lancinância da
paixão, o contristado religioso desapareceu na espessura verde
da serrania, tendo deixado o hábito a simular a sua presença,
que ainda hoje pode ver-se, mas transformado nas sinuosidades de
um barroco.
Não tem esta evocação por objecto
reconstituir as passadas imémores do frade rendido a poderoso
enlevamento. Vamos esquecê-lo. O meu intento, hoje, é bem mais
desambicioso: apenas recordar, cinquenta e dois anos volvidos, a
caverna do rochedo que se transformou, por tardes de nevoeiro
pingoso, em escola de história e literatura...
A coisa passou-se assim. Eu, o Guilhermino
Mesquita (há meses, infaustamente, para sempre desaparecido) e o
José Augusto tínhamos ficado pela 4ª. classe. Aprendíamos
ofícios sem grandeza. Imposições da ordem iníqua
estabelecida. Havia que respeitá-la. O repasto do saber não era
para a totalidade dos indivíduos, apenas para os que podiam
pagar o exorbitante bilhete de ingresso. Cinco ou seis
privilegiados tinham ido estudar para Bragança, Porto,
Coimbra... Quando vinham a férias, presunçosos, esmurravam a
nossa ignorância com a autoridade dos seus conhecimentos... E
nós, perplexos, aparávamos-lhes os golpes com o vulnerável
elmo da impotência, uma vez que não podíamos dar-lhes troco
adequado.
Um dia, com o piedoso sentimento de quem se
sagra cavaleiro, à luz de um poente de Outono, proclamáramos
bem alto, até à contorção das agulhas dos pinheiros, o clamor
do nosso protesto: doravante iríamos conquistar, pelo nosso
esforço, algo do que os outros iam aprender, longe, à custa da
capacidade económica dos pais.
Juntámos, tostão a tostão, os trinta escudos
- uma fortuna! - indispensáveis para mandar vir de Lisboa o
Compêndio de História Universal, por António Mattoso, então
adoptado nos liceus. Eu contribuí, de imediato, com "A
Chave de Os Lusíadas" que o Pim me havia oferecido, onde
cada estância do poema era claramente interpretada, em notas de
rodapé. E lá íamos, serra acima, todos os domingos, chovesse
ou ventasse, para a gruta do "Frade", onde nos
instalávamos e fazíamos o ponto do que aprendêramos durante a
semana.
Alguns supostos eruditos da terra, vendo-nos
com "Os Lusíadas" debaixo do braço, não perdoavam a
sem-medida do atrevimento: "Melhor fora que lêsseis
"As Pupilas do Sr. Reitor" ou "O Amor de
Perdição". Camões não é para os vossos dentes!"
Recebíamos a censura como um vexame, porque
compreendíamos - e, sobretudo, sentíamos - o que lêramos. E
vibrávamos não só com a epopeia, mas também com o musical
arrrebatamento da lírica. Sabíamos, até, alguns sonetos de
cor.
Entretanto, ocorreu acontecimento cultural de
inexcedível valor, na passividade da Vila: o emérito Raul
Correia instituía uma biblioteca, de leitura domiciliária
inteiramente gratuita. Que dia grande, esse, gravado a sol nas
nossas almas!
Começámos, já não sei como nem porquê, por
Stefan Zweig. Nada sabíamos do seu drama de humanista expatriado
pela hediondez nazi, dos seus livros proibidos e incinerados na
praça pública, do seu trágico fim, em Petrópolis, próximo do
Rio de Janeiro. E o prestante escritor austríaco foi-nos
conduzindo para outras esferas: Erasmo, Dickens, Dostoievsky,
Tolstoi, Nietzsche... Quanto entusiasmo deposto na leitura de
"Maria Antonieta", "Fernão de Magalhães",
"O Mundo de Ontem"... Que pena não ter existido um
gravador de som, nas paredes do "Frade". Só ele
poderia testemunhar do nosso enlevo.
O certo é que, a partir de então, quando os
previligeados vinham em gozo de férias, se não sabíamos as
leis da Fìsica, nem demonstrar teoremas, nem balbuciar Inglês
ou Francês, como eles, falávamos-lhes dos livros que havíamos
lido, e dos quais nunca tinham ouvido falar! Era a hora alta do
nosso desforço.
Pouco durou esta cátedra na montanha. Em 1950,
partia para Lisboa, onde, finalmente, ia poder dar corpo ao sonho
de uma vida - estudar! Muitas vezes me veio à lembrança a
aprendizagem na caverna que, ao contrário da de Platão, não
era de sombras, mas de inextinguível esplendor, pois nela
germinaram algumas ideias básicas acerca do que deve entender-se
por cultura, talvez engrandecidas pelo esvoaçar do espírito do
confesso que, vítima de uma amor impossível, ali deixou o
hábito para sempre esquecido, ou para sempre lembrado na
perpetuidade da pedra afeiçoada pelos ventos volúveis da
montanha...
|