| A democracia é o pior dos
regimes políticos ... exceptuando todos os
outros. Winston
Churchill tinha razão ao fazer esta afirmação.
É que não há regimes ou sistemas perfeitos.
Há, certamente, uns que são maus, outros menos
maus e um que, pela sua própria natureza,
procura a justiça tendo como base o respeito
pela vontade do povo e que, por isso, se designa
de democracia.
A diferença entre este regime
e todos os outros é que só este garante o
exercício dos direitos humanos, o respeito pela
dignidade humana e a prática da justiça e da
liberdade. Mas não é um sistema perfeito porque
simplesmente regimes perfeitos não existem.
Há momentos mais intensos na
vida democrática dos povos que têm a sorte de
conviverem em democracia. Digo momentos mais
intensos, porque independentemente deles, todos
os momentos deveriam ser vividos em conformidade
com os princípios democráticos. Acabámos de
viver um desses momentos - as eleições para as
autarquias locais. A importância deste acto
advém do simples facto de se tratar de escolher
os representantes do povo e os governantes que
mais perto se encontram desse mesmo povo. Os que
com ele convivem e com ele se sentam à mesa do
café, a quem o povo trata por tu, sem barreiras
nem etiquetas e que com ele se encontra nas ruas
e praças, nas festas e romarias, nos trabalhos e
jogos da vida. Para além dos resultados e dos
eleitos, trata-se de um momento vital na nossa
convivência democrática.
Mas nem só destes momentos
vive a democracia. Todos os restantes devem ser
vividos em conformidade com o conceito e com os
princípios da democracia.
Democracia é o exercício da
cidadania plena e da participação na vida da
comunidade sem quaisquer constrangimentos,
ameaças ou riscos para a integridade física,
psíquica ou moral dos cidadãos e das
instituições. Agir contra este princípio é
crime contra a liberdade democrática.
Democracia é o respeito pelas
ideias dos demais (muito embora se discorde
delas), adversários ou concorrentes, pelos seus
direitos cívicos e bom nome.
Democracia é poder concorrer
nas mesmas condições que os seus adversários:
poder agir no mesmo terreno em que o outro age,
expôr ao eleitorado os seus projectos tal como o
outro expõe, votar como o outro vota, poder ser
eleito respeitando a vontade dos eleitores.
Democracia exige o cumprimento
das leis democraticamente aprovadas; não se pode
aceitar que, contra as disposições legais e
usando os mais ardilosos argumentos, se prolongue
o exercício das funções dos eleitos para além
do términus do seu mandato. Não se compreende
democraticamente que se tome um resultado
eleitoral por outro mais conveniente e mais
conforme com os interesses particulares de um
cidadão, distorcendo-o a seu bel-prazer.
A anomia pode aceitar-se em
termos culturais ou artísticos, tal como se
valoriza a violação da norma em termos
literários, já que daí não resulta qualquer
dano para quem quer que seja, antes concede
beleza ao texto ou expressividade à obra de
arte. Em termos sociais ou institucionais,
porém, a anomia, porque lesa os direitos dos
indivíduos, a dignidade das instituições e a
estabilidade social, é inaceitável.
A democracia não é um regime
perfeito. Permite que ocorram vícios, fugas e
disfunções. Porém, o que a distingue dos
regimes ditatoriais é que todos estes desvios
podem ser detectados, avaliados e rectificados.
Daqui a importância da vida em democracia e da
aprendizagem que dela urge constantemente fazer
na vida do dia a dia e dos actos que praticamos.
Daqui a sensação de estarmos bem connosco e com
os outros. É por isso que, enquanto não for
encontrado outra via mais convincente, continuo a
pensar que a democracia é o melhor de todos os
regimes sociais e políticos.
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