...da política

Fernando Calado


No Remanso das Autárquicas

 

Doze concelhos foram a votos, como quem sabe que pode determinar, com a força ímpar da democracia, quem vai colocar à beira do Poder, ou quem vai penalizar pela sua ineficácia ou arrogância de atitudes e gestos. A análise política permite-nos, com a utilização de instrumentos científicos, definir hipóteses, trabalhar as variáveis, tirar conclusões que procuramos objectivar para que os resultados da análise tenham validade e consistência. Contudo, há elementos que nos passam à margem em virtude da sua subjectividade, como as emoções que funcionam muitas vezes ao nível dum inconsciente profundo e inacessível e então a nossa previsibilidade relativamente ao devir político, não tem consistência e os resultados eleitorais, fruto do acto solitário e íntimo de colocar o voto na urna, Domingo de eleições, determina resultados impensáveis e desconcertantes. Por exemplo, durante toda a campanha eleitoral permaneceu uma ténue fragilidade de Luís Mina e da sua equipa e dizia-se que ia ganhar, embora perdendo muitos votos. Do Presidente da Junta da Sé, José da Cruz, no sonho de construir o seu espaço de poder e influência na estação da C.P., nem os mais cépticos, alguma vez, admitiram que José da Cruz saísse perdedor nestas eleições cheias de surpresas. Agora já se diz, numa conclusão apressada, Luís Mina arrastou na sua derrota, como um vendaval, José da Cruz, umbilicalmente ligado à Câmara e aos ódios que o Poder engendra no seu ventre desgastador e penalizante. Quem saiu a ganhar deste bem querer, Luís Mina, José da Cruz, foi Amílcar Pires, o mal-amado e enjeitado da área afectiva da Câmara, a quem o povo recebeu no seu regaço e matou o vitelo gordo para receber o pródigo que regressa a casa.

Jorge Nunes ganhou, fruto dum mal estar que perpassa pela cidade, a nível de muitas pessoas que todos os dias se debatem com angústias enormes das prestações para pagar, do dinheiro que escasseia ao canto da arca, duma classe média que perdeu o bem estar sonhado, da família incapaz de gerir os conflitos de gerações e se vê a braços com o drama constrangedor da droga, da prostituição, do insucesso escolar. Jorge Nunes personificou a mudança com grande carisma de competência que se impunha para uma cidade sem graça, sem urbanismos, que se gastou em grandes obras, necessárias, urgentes, mas que ninguém vê na lonjura do Alto Sabor. Depois Jorge Nunes também transporta consigo uma certa nostalgia de filho de povo, arrancado à aldeia, ao amanho da terra, do mungir da vaca, à calmaria do lameiro onde os freixos criam paisagens infindas como sinais da diferença do Nordeste e o Povo, sempre atento aos sentimentos, de alguma forma também premiou aquela humildade original que se desenha nuns olhos onde a tristeza surge num abandono infindável, de alguém que chegou ao Poder entendendo que esse mesmo poder traz em si grandes solidões.

Um outro caso emblemático em termos da subjectividade política é Freixo de Espada à Cinta, onde na Vila e mais cinco freguesias, praticamente, já todas as obras estavam feitas e a nível cultural era um exemplo de acção na vivência e sensibilidade de Ernesto Andrade. Contudo, Freixo é aquela micro sociedade onde as tenções chegam facilmente ao clímax e a gerência dessa dinâmica social nem sempre encontra uma resposta ao nível duma objectividade comportamental, produzindo efeitos ao nível das emoções que quer queiramos, quer não, são determinantes na opção política. Alberto Madeira concentrou em si o prestígio da obra feita e o desgaste foi inevitável na gerência de todos os interesses. Só Ernesto Andrade podia ser o ponto de equilíbrio congregando em si o prestígio de Alberto Madeira, sem as tenções negativas que se projectaram no presidente, evitando assim o grande peso de rejeição protagonizado por grandes aldeias, como Laguaça, onde alguns líderes locais, carismáticos que nestas eleições apostaram no PSD, desviaram muitos votos que tradicionalmente pertenciam ao PS.

Em Miranda do Douro o PS perdeu por causa duma certa orfandade política a que Júlio Meirinhos votou os Mirandeses que não foram capazes de gerir o luto e a figura do primo de Meirinhos não tinha o carisma necessário para devolver aos mirandeses o prestígio e a presença ptotectora de Júlio Meirinhos. Por isso, esta situação de luto foi ultrapassada com o recurso a alguém de fora que não trouxesse em si memórias de Júlio Meirinhos.

Mirandela deu continuidade ao fascínio do urbanismo, da festa, da sala de visitas citadina preconizada por José Gama e José Silvano só teve que saber gerir este estado de graça suficiente ao nível da cidade para ofuscar algum mau estar do meio rural, cheio de grandes contradições, num concelho essencialmente voltado para o fulgor da sua cidade, para sempre princesa do Tua.

Carrazeda de Anciães, deu continuidade aos ideais e à fidelidade heróica aos PSD e Ricardo Paninho, um homem da cultura, da educação de adultos, não foi capaz de fazer passar a mensagem socialista perante a vivência pacional a que o PSD vincula as populações de Carrazeda de Anciães.

Alfândega da Fé e Manuel Cunha, Macedo de Cavaleiros e Luís Vaz, Mogadouro e Francisco Pires, Moncorvo e Aires Ferreira, Vimioso e José Miranda, Vinhais e Carlos Taveira, Vila Flor e Artur Pimentel, este são os grandes dinossauros da vida autárquica, grandes senhores do PS, devotados com paixão aos seus concelhos, fizeram da campanha a grande festa da amizade. O Povo gostou e na sabedoria de quem pensa com a razão e age com o coração, o Povo disse sim a estes autarcas que também são Povo no desejo incontido de servir.


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